Essa postagem, apesar de falar de política e da cidade, tem como assunto principal algo que também me é caro: o futebol.
Em 1999, o Racing, de Avellaneda, tradicional time argentino, abriu falência. Com a perspectiva do clube encerrar suas atividades e ser extinto, a torcida blanquiceleste fez grandes manifestações à época, desesperados e sentindo-se órfãos. Afinal, a escolha por um time de futebol é uma das grandes e definitivas (em geral) escolhas da vida de uma pessoa.
Depois de algum tempo, uma empresa assumiu o clube, que levou quase dez anos para se recuperar. O risco da extinção foi afastado e hoje o Racing de Avellaneda participa normalmente das competições na Argentina.
A princípio, parece não haver perspectiva pior na vida do que a extinção de seu clube do coração. Mas existe algo pior ocorrendo neste momento em alguns clubes, especialmente o Esporte Clube Santo André, que é o tema desta postagem.
Pior do que um time ser extinto é ele perder sua identidade, ser esvaziado de seus objetivos e transformado em uma central de escambo de jogadores. Existem exemplos de modernização de times, gestões empresariais e trocas de comando que deram muito certo ao redor do mundo, tornando times médios em colecionadores de títulos. Caso emblemático é o Chelsea, que foi assumido pelo bilionário russo Roman Abramovich e desde então figura entre os times de maior investimento da Europa.
No entanto, com o Santo André ocorre um movimento mais perverso: o clube foi transformado em uma central de compra e venda de jogadores, uma vitrine em que o objetivo não são os títulos e nem a notoriedade, como poderia se esperar de qualquer time. O objetivo é apenas o lucro fácil com o inflacionado mercado de jogadores de futebol. Exemplo disso foi o desmonte do time vice-campeão Paulista de 2010 nos dias seguintes às finais do campeonato, que traz conseqüências até hoje e ocasionou o vergonhoso rebaixamento do clube à Série C do Campeonato Brasileiro.
Pensem em um clube de futebol como um filho. Alguém a quem você dedica amor, por quem você luta, alguém que faz você entrar em discussões e por vezes te deixa de mau humor. Agora imaginem que seu filho morre. Você sentirá saudades eternamente desse filho, sentirá uma dor indescritível, que deve ser pior do que qualquer coisa da vida. Mas, vez por outra, se conformará, lembrando dos bons momentos que vocês passaram juntos.
Agora, imagine que, ao invés do seu filho morrer, ele se torna tudo aquilo que você não quer que ele seja. Imagine que ele passou a te agredir constantemente, tornou-se um ser humano deplorável, o contrário de tudo o que você sempre defendeu. Imagine que você tem que lidar com sua decepção diariamente, tem que observar seu filho todos os dias e lidar com o seu fracasso na função de pai. Notar que você ainda o ama incondicionalmente, mas não tem mais motivos para defendê-lo. É pior do que ver seu filho morrer, muitas vezes. A morte só machuca uma vez. A decepção diária machuca constantemente, fazendo com que o amor arrefeça, diminua, fique cauterizado.
É isso o que ocorre com o Santo André hoje. A torcida já não tem incentivo em ver um time cujo único objetivo é a venda sem critério de jogadores, para o lucro fácil de alguns poucos dirigentes. Ver que alguns jogadores recusam-se a jogar pelo clube, observando o que ele se tornou. Que a torcida está órfã, por não ter um time para o qual torcer e por ver ingerências diversas, diretores interferindo em escalações para facilitar negociações, jogadores empenhados apenas em jogos que tenham algum retorno (como transmissão para a TV, por exemplo), e diretores completamente indiferentes à situação lastimável do clube, que acumula três rebaixamentos nos últimos quatro anos e ruma para o quarto. Mais rebaixamentos em menos de meia década do que todos os que o clube já teve em sua história de 43 anos.
Ver seu clube se torna tudo aquilo que você mais odeia no futebol é pior que que você ver seu clube ser extinto. A extinção ainda dá a esperança da refundação, do zero, como já ocorreu em clubes como o Napoli, da Itália, que hoje luta pelo título do Calcio. A transformação do seu clube em um balcão de negócios não dá esperança nem disso, visto que ninguém vai querer se desfazer de um negócio lucrativo como o mercado de jogadores de futebol enquanto houver possibilidade de lucro.
Existem, sim, coisas piores que o fim. E são exatamente estas coisas que estão ocorrendo com o Esporte Clube Santo André, digno de respeito por sua história, mas não por seu estado atual.
0 comentários:
Postar um comentário